O agronegócio e os conceitos no mundo dos negócios.

Os conceitos, a política e a economia.

Este artigo, pretende elencar o que se passa nas cabeças, ditas como pensantes, nos dias de hoje e ordenar de um modo melhor o que ouço de diversas fontes, autoridades, cientistas políticos, economistas e da mídia em geral.

Para isto acho fundamental entender bem, quando temos o discurso sem a prática, quando temos a prática sem discurso e quando o discurso vira a prática.

Autor deste artigo: Edmar Lopes
(Artigo com o conteúdo e tema bastante atual, foi escrito no ano de 2015)


  As opiniões expressas nos artigos da coluna “visão, são exclusivas dos autores.

Surge, então, a primeira dúvida: o que abordar primeiro, os termos mais usados ou os conceitos que estes envolvem. Creio que a abordagem conjunta seria mais clara.

A intenção é seguir uma sequência lógica e depois, gradualmente, reuni-las dando um sentido prático, sempre pensando em um cenário econômico, ou seja, buscar ir do discurso para a prática – viabilização econômica.

Produtividade
Uma das mais usadas, hoje em dia, por todos e em tudo. Porém poucos a entendem em seu real significado. Alguns a explicam como sendo uma simples equação – o que se produz pelo números de pessoas que produzem, PIB (produto interno bruto/habitantes) e, os mais próximos a economia, o quanto de dinheiro investimos pelo resultado financeiro que se obtém. Este último também é conhecido como lucratividade, ou seja, a produtividade do capital.

Competitividade
Tem a ver com competência, ou seja, teóricamente só serão competitivos os que possuem as competências para tal. Há, neste caso, tudo a ver com a qualificação das pessoas. Isto quer dizer que só pessoas competentes podem ser competitivas, de forma pessoal ou atuando de forma organizacional.

Vocação
Muito usada no dia-a-dia da mídia, seria a aptidão para um determinado propósito.

Quando não se sabe , não se faz, não se pratica e/ou não se produz determinadas ações e/ou produtos, costuma-se dizer que nós brasileiros não temos vocação para isto. Explica-se, assim, a não qualificação e a não produção ou baixa produção das pessoas e dos produtos, como falta de vocação. Observando-se atentamente, chega-se a seguinte conclusão do processo decisório para este tipo de afirmação: isto terá retorno financeiro ou não, será bom ou não se investir nisto?

Se estas respostas não obtiveram um sim, costuma-se dizer que, não se tem vocação.

1ª Reflexão
Neste momento uma reflexão se faz necessaria, mesmo não tendo esgotado a proposta inicial de uma clarificação sobre os termos/conceitos e seus usos a partir de como a sociedade e a mídia os tratam.

É de conhecimento geral a enorme área territorial do Brasil, o potencial da agricultura e o reconhecimento, nacional e internacional, da nossa produção agrícola. O agronegócio brasileiro é respeitado em todo o mundo, além de ser responsável por boa parte do superavit da nossa balança comercial.

Aqui chega-se ao conceito do chamado retorno financeiro. Todo economista e/ou empresário que se preze, sabe que qualquer negócio deve ser valorado pelo que gera financeiramente.

Entendido isto, gostaria de apresentar o gráfico abaixo, e pedir para pensarmos juntos o que devemos fazer e/ou o que estamos fazendo de errado.

A intençao não é ter especialistas em análises gráficas, mas memorizar a idéia/imagem do gráfico que claramente nos mostra um concistente crescimento do nosso agronegócio.

A esta altura já começamos a entender porque se trata o agronegócio como produtivo, competitivo e vocacionado para o Brasil. É um negócio bem valorado!

Com esta idéia de valoração, vamos a um novo termo/conceito

Economia Sustentável
Estes dois termos juntos são o tema da moda. Pena serem tratados como moda, porque a moda geralmente é passageira. Porém, a economia sustentavel veio para ficar, pois só deixaremos de ouvir falar nelas, quando estas estiverem incorporadas ao DNA do ser humano, vivos ou extintos. A escolha será nossa.

A ONU o define, de certa forma como – O futuro que queremos.

Tratado no ambito da economia por mais que se divague ou se de asas a imaginação é a ela que sempre voltamos. E como falar em economia sem falar em crise?

Neste ponto vamos pedir emprestado alguns dos argumentos de Gaghuram Rajan, ex-economista chefe do FMI, e um dos poucos a prever a crise de 2008. Rajan nos ensina que as crises refletem as fraquesas das economias. Quando se refere a crise de 2008, ele comenta que os países industrializados ficaram muito dependentes de endividamentos nos últimos 15 a 20 anos, e que crescer desta forma é insustentável.

Ele afirma ainda que: o crescimento não ocorrerá apenas de empréstimos e gastos de governos, ou empréstimos ou gastos das famílias, citando também uma máxima quanto a crédito – normal é bom, o excesso é ruim.

2ª Reflexão
Como será o nosso caminho para a sobrevivência da espécie humana e sua economia? Todos queremos tudo a que teóricamente temos direito. Lembramos de um antigo ditado que diz – todos querem encontrar Deus, mas ninguém quer morrer para isto.

Como pensar e desejar uma nova forma de ver e transformar o mundo, se não mudamos a forma que agimos? Como querer mudar os resultados se não mudarmos os nossos paradigmas? Como pensar em sobrevivência, sem pensarmos em mudança de hábitos e consumos? Como mudar os nossos padrões de vida, sem pensarmos em como mudar o que chamamos de qualidade de vida e que entendemos como conquistados, entendidos aqui por conforto e consumo?

Sinceramente acho que somos uma espécie de analfabetos funcionais, falamos e não estamos, de fato, entendendo o que estamos falando. Parecemos perdidos e sem a definiçãode para onde queremos ir.

Sêneca, a centenas de anos atrás nos ensinou que – Não há vento favorável para aquele que não sabe aonde vai.

Compartilho uma pequena vivência que tive frequentando algumas das palestras e debates da Rio +20, e que me foram esclarecedoras. Notei que são alguns dos pontos de inflexão do momento que vivemos: precisamos mudar a nossa forma de consumir, entendendo o consumo de uma forma mais ampla e abrangente; temos e devemos produzir de uma forma harmoniosa com o meio ambiente.

Produção e harmonia me conduzem a outro termo/conceito:

Planejamento
Se entramos no wikipedia temos a seguinte definição: é uma ferramenta administrativa, que possibilita perceber a realidade, avaliar os caminhos, construir um referencial futuro, estruturando o trâmite adequado e reavaliar todo o processo a que o planejamento se destina.

Via de regra, só aparece nas organizações bem estruturadas, assim mesmo e com raríssimas exceções, a visão é de curto ou no máximo de médio prazo.

Desconheço, em nosso país, organizações ou autoridades públicas planejando, neste momento, o ano de 2050? Mas isto existe em alguns lugares no mundo. Sugiro que você entre na internet e verá cidades, chamadas de Cidades Inovadoras, que estão se planejando para 2030 e 2050.

3ª Reflexão
Voltando a realidade brasileira, o planejamento só existe nas organizações privadas e que tendem a se perpetuar. Já nas organizações públicas, autarquias e governos, esta palavra teria que ter como definição ……e vale por, no máximo, quatro anos ou até o próximo mandato.

Será que não há algo de estranho quando falamos em economia sustentável e harmonia com a natureza, quando tenta-se compatibilizar planejamento de curto e médio prazo com a natureza? Para a natureza e o meio ambiente a visão é sempre harmoniosa e de longo prazo.

A total falta de foco e/ou desinteresse das autoridades públicas e privadas os conduz a vocação de atos heróicos, só se trabalhando por crises. Os atos e as deliberações que estamos acostumados a ver, quase sempre tem um carater pontual. Ao se ter foco, não se impõe uma perda ou falta de visão holística, muito pelo contrário, ao se focar, deve-se ter sempre em mente a visão do todo, pois só assim tentaremos ser harmoniosos como a natureza. É comum campanhas com slogans de visão do todo, mas também é muito comum as ações segmentadas e dirigidas para um determinado objetivo, o que via de regra não conduz o olhar para o impacto causado ao todo.

Esta reflexão traz em si a necessidade de compreender o ultimo grupo de termos/conceitos.


POLÍTICAS e NECESSIDADES
Estas deveriam ser escritas e pensadas com letras maiusculas. Quando ve-se o desrespeito e principalmente o despreparo ou a má fé, que via de regra, se assim pode-se dizer como estes são tratados, a preocupação ocupa um lugar especial.

Raras foram as vezes na história deste país que as autoridades executivas, em todos os entes federados tiveram um foco holístico e um verdadeiro planejamento, estratégico ou de longo prazo.

Mesmo quem não conhece gestão consegue ver que estes planejamentos, as políticas industriais e os diagnósticos são, quando muito, uma Carta de Intenção, porque não se baseiam em dados e fatos, mas algumas delas parecem calcadas em interesses as vezes escusos. Via de regra, também não há base estatística crível e nem tão pouco possuem objetivos, metas e planos de ação bem definidos, assim como não nos apresentam indicadores que possamos medir e/ou confiar.

Qualquer bom gestor sabe – Não se controla o que não se mede e/ou não se pode medir.

Lembro-me mais uma vez de Sêneca.

Quando temos um arremedo de Plano de Ação, raríssimamente vezes se vê a atribuição de responsabilidades e sistemas de controle capazes de suportar a idéia.

Atire a primeira pedra aquele brasileiro que nunca ouviu a seguinte frase – É culpa do sistema. O sistema não está funcionando. O sistema está fora do ar.

Quem de nós acreditaria em uma prescrição médica, cujo diagnóstico fosse errado e/ou tivesse sido calcado em informações erradas, ou seja, como podemos acreditar nos processos decisórios, quando não vemos consistência de dados e informações.

Commodities
Alguns dos sábios de plantão a consideram um palavrão.

Alguns analistas falam sobre elas, porém sequer conhecem seus processos, suas cadeias e custos produtivos.

Na mídia constantemente lemos, vemos e ouvimos que, enquanto formos um país exportador de commodities não iremos crescer, que precisamos verticalizar e exportar produto manufaturados. Associa-se a este discurso o valor agregado e a chamada primarização da economia.

Um dos exemplos é o minerio de ferro, que, para cada milhão de toneladas de minério são necessários 100 empregos e para cada milhão de tonelada de aço se gera 2 mil empregos. Só esquecem de dizer é que não teríamos como consumir este enorme volume de minério de ferro em siderúrgicas existentes no Brasil, nem como absorver este aço excedente, que seria produzido, pelas indústrias de transformação aqui instaladas.

Há uma grande diferença entre o que se pensa e diz e o que é operacionalmente exequível.

Confesso que durante estes anos, nuca ouvi e/ou vi qualquer estudo que envolvesse e/ou prospectasse toda uma cadeia produtiva, do chamado berço ao tumulo, verticalizada ou não.

Na grande maioria das vezes que alguém fala que precisamos agregar valor, está pensando em verticalizaçào da cadeia produtiva para frente, e não se refere aos segmentos envolvidos para suportar a cadeia de valores existentes. Quem poderá dizer com absoluta certeza que, as chamadas matérias primas são insumos ou produtos? Algumas matérias primas, levam tantos insumos e tecnologias embutidas, que quem a produz sentir-se-á ofendido quando as chamarmos de matéria prima. Quantos conhecem de fato a chamada agricultura de precisão?

Quantos sabem, de fato, quantas e quais tipos de tecnologia envolvem, hoje em dia, um processo agricola?

Já que algumas vezes criticamos as autoridades, principalmente executivas, gostaria de ressaltar e elogiar que, sem empresas como a EMBRAPA e a EMATER, o Brasil não teria conseguido ser e ter a poderosa agricultura que tem hoje.

Entretanto, gostaria de ressaltar que, muito ainda se tem por fazer. O Brasil, segundo alguns especialistas ainda possui cerca de 100 milhões de hectares de área fertil a expandir, isto equivale a uma área maior que a área da França e Espanha somadas.

Chego, enfim, ao ultimo termo/conceito.

Cadeia Produtiva
Precisamos de fato, nos perguntar sobre o que queremos e onde queremos chegar.

Conhecendo as respostas certamente teremos que redimensionar diversos segmentos, estrurar e suportar de fato as cadeias produtivas que temos, o que demanda muita educação e tecnologia.

A pouco tempo, ouvi de um cliente meu: Ninguém consegue ser bom ou saber tudo.

Será preciso ver, analisar e dimensionar de fato as chamadas cadeias produtivas.

Você lembra de quando estava para decidir qual seria sua profissão? Quantas vezes você escutou qual seria a carreira do futuro? Quantas vezes você não escutou que o Brasil será o celeiro do mundo? Quantas vezes, agora, o atual estudante está ouvindo que o nosso futuro está no Pré-Sal? É isto mesmo? Como pedir a um jovem estudante para se decidir, quando as autoridades não sabem o que querem e nem para onde o país irá de fato? Como podemos saber o que devemos focar com esta fragilidade política? Como termos uma boa política educacional e focada, se não sabemos o que terão que conter as grades escolares? Como ter um bom IDH se não sabemos para onde vamos e não educamos os nossos jovens para suportar isto?

Sêneca permanece cada vez mais atual!

NÃO HÁ VENTO FAVORÁVEL PARA AQUELE QUE NÃO SABE AONDE VAI.

CONCLUSÃO


Após refletir e analisar resultados, fatos e os dados disponíveis que hoje possuo, cheguei a várias conclusões e encerro apresentando a primeira delas.

É necessário ser realista porque um negócio só sobreviverá se for rentável, obtiver resultados. Aqui, novamente, peço emprestado alguns dos ensinamentos de Rajan quando nos faz algumas afirmações – que o crescimento virá pela produção de bens, que as pessoas precisem comprar, economias calcadas em endividamentos só se sustentarão, enquanto houver alguém disposto a continuar emprestando e finalmente temos que descobrir fontes de crescimento no setor privado. Esta é a partida para chegar onde queria.

Ao pensar nos diversos segmentos que conheço, e elencando os termos/conceitossobre os quais discorremos ao longo de todo o texto – produtividade, competitividade, vocação, economia sustentável, planejamento, políticas e necessidades, commodities e cadeia produtiva – é perceptível que o segmento apto para todos estes entendimentos e competências é o agronegócio. O futuro somos nós que o fazemos e o futuro é hoje, o futuro já chegou, ou já está batendo em nossa porta. Já somos conhecidos como parte do celeiro do mundo. Porque se envergonhar quando somos chamados de um país agricola? Quem não precisa comer para viver? Alguém tem dúvida de que a população continuará crescendo? Se ficar claro para todos que o agronegócio é um bom negócio, então, por que não começarmos a planejar o país, utilizando-o como um dos segmentos estruturantes?

Caso haja duvida quanto ele ser considerado um segmento estruturante, apresento um pouco mais da abrangência e dimensão atual da nossa agricultura.

Retornando aos nosso termos/conceitos e reflexoes anteriores, quantos e quais segmentos/competências hoje conseguem viabilizar/permitir investimentos em infra-estrutura como energia, ferrovias, rodovias, portos? Quais geram demandas nos diversos tipos e qualificação de mão de obra, da mais simples ao pósdoutorados. Quais também necessitam da prestação de serviços e produtos nos segmentos/competências de agricultura, geologia, pecuária, biotecnologia, tecnologia da informação, nanotecnologia, logística (incluído o multimodal), biodiversidade, sustentabilidade, estatística, matematica, meteorologia, climatologia e tantas outras? Finalmente, qual outro segmento tem de fato um potencial de crescimento suportado por uma demanda real e projetada, corroboradas por estudos nacionais e internacionais feitos por diversas e renomadas instituições.

São tantas, diversas e diferentes complexidades, que vou parar por aqui, muito embora tenho a absoluta certeza de ter esquecido algo importante.

A questão maior é, até quando seremos ou teremos gestores que só trabalham por gerenciamento por crise, ou seja, conforme acontecem os fatos é que reagem.

Notem que escrevi reagir e não agir.

Para poder agir, é preciso pensar antes – planejar.

O brasileiro é um povo maravilhoso, com uma tremenda vocação para herói. Não gostamos do dia-a-dia, adoramos os desafios e atos heróicos. É possível ver claramente o nosso comportamento quando submetidos a crises, catastrofes e acidentes. Se usássemos uma pequena parte do nosso potencial para trabalharmos e pensarmos o futuro, certamente seríamos uma real potência do mundo. um povo crescente e desenvolvido. Acreditar que um país só é de fato realmente forte, quando o seu povo é forte é muito bom e bonito, mas não podemos e não devemos ter autoridades que não pensem a longo prazo, que pensem somente até no máximo, em dois mandatos. Temos o direito de ter e exigir políticos e autoridades comprometidas com o futuro e não com seus mandatos e carreiras.

O objetivo deste artigo foi lançar várias caraminhólas para o leitor pensar, mas nem de longe entendo que o assunto está esgotado.

  • Edmar Lopes é diretor e consultor da Lavor&Lopes e Conselheiro do CSN INVEST Fundo de Investimentos. Ocupou os cargos de diretor na CSN, presidente da Fábrica de Estruturas Metálicas – FEM e membro nos Conselhos de Energia da FIRJAN, de Administração da CSN e da LIGHT e Conselho Fiscal da Casa da Criança e do Adolescente.

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