Brasil Amazônia: velhos inimigos se unem para salvar suas terras

Enquanto a atenção do mundo está focada nos incêndios que ocorrem na floresta amazônica no Brasil, os indígenas que vivem lá alertaram que as políticas do presidente Jair Bolsonaro representam uma ameaça maior à sua existência.

Foto: Kayapó e Panará, que já foram rivais, se uniram contra as políticas do governo brasileiro. (LUCAS LANDAU / REDE XINGU)

Grupos rivais agora se reúnem para combater os planos do governo para a região que é a sua casa, como João Fellet, da BBC News Brasil, reporta da aldeia amazônica de Kubenkokre.

Dezenas de indígenas se reuniram nesta parte remota do norte do Brasil no mês passado, depois de viajarem por dias de ônibus e barco.

O encontro reuniu inimigos anteriormente jurados, como os Kayapó e os Panará.

Os dois grupos estavam em guerra há décadas, invadindo as aldeias um do outro em ataques de tit-for-tat. A guerra terminou brutalmente em 1968, quando um ataque dos Kayapó, que vieram armados, deixou 26 Panará, que só tinha flechas para se defender, mortos.

As tensões permaneceram altas por anos, mas, de acordo com os reunidos em Kubenkokre, os dois lados já superaram sua animosidade por um objetivo maior.

“Hoje, temos apenas um inimigo, o governo do Brasil, o presidente do Brasil e os invasores [territórios indígenas]”, explicou o líder de Kayapó, Mudjire.

“Temos brigas internas, mas nos reunimos para combater esse governo”.

Suas palavras foram repetidas pelo líder do Panará Sinku: “Matamos os Kayapó e os Kayapó nos mataram, nos reconciliamos e não vamos mais lutar”.

“Temos um interesse comum em nos unir para que os não-indígenas não matem todos nós”, disse ele, referindo-se às ameaças colocadas pela chegada de mineiros e madeireiros que realizam atividades ilegais em sua área.

‘69.000 campos de futebol perdidos ‘

Mais de 800.000 indígenas vivem em 450 territórios indígenas demarcados em todo o Brasil, cerca de 12% do território total do Brasil. A maioria está localizada na região amazônica e alguns grupos ainda vivem completamente isolados e sem contato externo.

O presidente Jair Bolsonaro, que assumiu o cargo em janeiro, questionou repetidamente se esses territórios demarcados – consagrados na constituição brasileira – deveriam continuar existindo, argumentando que seu tamanho é desproporcional ao número de indígenas que vivem lá.

Seus planos de abrir esses territórios para mineração, exploração madeireira e agricultura são controversos, e qualquer mudança em seu status precisaria ser aprovada pelo Congresso Brasileiro.

Encontro no Xingu
indígenas apresentaram danças e canções tradicionais durante o encontro (LUCAS LANDAU/REDE XINGU+)

Mas é algo que preocupa os líderes indígenas reunidos em Kubenkokre. “Outros presidentes tinham mais preocupação com a nossa terra. [Sr. Bolsonaro] não está preocupado com isso, ele quer acabar com o que nosso povo tem e com a forma como vivemos”, explica o líder do Panará, Sinku.

“É por isso que tenho um coração pesado e é por isso que estamos aqui conversando.”

Em algumas áreas demarcadas, madeireiros e mineiros já estão trabalhando depois que alguns líderes indígenas locais lhes deram permissão.

O líder indígena Bepto Xikrin contou ao encontro como cerca de 400 mineiros e madeireiros entraram ilegalmente no território de Bacajá desde o início do ano. Ele disse que os membros de seu grupo indígena estavam assustados e não sabiam o que fazer.

E de acordo com uma rede de 24 grupos ambientalistas e indígenas, a Rede Xingu +, uma área equivalente a 69.000 campos de futebol foi destruída entre janeiro e junho deste ano, somente na região do rio Xingu.

Doto Takakire
O líder Kayapó Doto Takakire mostra algumas das áreas destruídas na bacia do Xingu (LUCAS LANDAU/REDE XINGU+)

Máquinas pesadas causaram grandes danos e os rios Fresco e Branco que correm pela região foram contaminados com mercúrio.

O líder de Kayapó, Doto Takakire, disse que a mineração ilegal foi mais incentivada pelo fato de muitas vezes ficar impune.

A análise da BBC Brasil mostra que o número de multas aplicadas pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis ​​(Ibama) por violações ambientais diminuiu significativamente desde que o presidente Bolsonaro assumiu em 1º de janeiro.

Gráfico que mostra o número de multas aplicadas desde 2009

Bolsonaro prometeu limitar as multas impostas por danificar a Amazônia e muitos culpam o presidente pela atual posição fraca do Ibama.

“Não vamos repetir o passado”

No encontro, realizado em português e em Kayapó, os participantes discutiram projetos para os desenvolvimentos econômicos de sua região que não contribuem para o desmatamento, como artesanato e processamento de frutas nativas.

“[Estou preocupado] com as árvores, a água, os peixes e os não-indígenas que querem entrar em nossa terra”, explicou Sinku. “Não quero contaminar a água com produtos tóxicos da mineração … É por isso que estou aqui.”

Grupos indígenas que permitiram que os mineiros entrassem em suas terras não foram convidados, uma omissão que alguns dos participantes descreveram como uma oportunidade perdida.

“Não há ninguém aqui que queira agronegócios ou mineração em suas aldeias, então vamos apenas conversar entre nós?” Oé, Kayapó, perguntou.

Os incêndios que queimaram na Amazônia não foram um grande tema de debate no encontro, em parte porque ocorreram principalmente fora das reservas indígenas protegidas, mas também porque os reunidos consideram a mineração ilegal e a extração de madeira como ameaças mais prementes.

“Não repetiremos o passado”, concluiu o líder de Kayapó, Kadkure. “A partir de agora, estaremos unidos.”

Audiência: Brasil, Estados Unidos, Reino Unido, Hong Kong, China, Israel, Índia, Portugal, Argentina, Itália, Japão, Emirados Árabes Unidos, Angola, Alemanha, França, Irlanda, Líbia, México, Nepal, Papua Nova Guiné, Filipinas. –  241  visualizações

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